Começo este longo texto pedindo desculpas àqueles que talvez se sintam atacados neste meu texto. Mas digo também àqueles que farei questão de citar nominalmente por suas qualidades e virtudes, que os elogios e reconhecimentos são de coração e frutos de suas competências!

Nestes meus quase 5 anos de vida profissional no mundo do vinho (8 anos se contar o início despretensioso deste blog), depois que dediquei 14 anos de minha vida profissional à minha formação inicial de publicitário, trabalhando em grandes agência, vejo com muita clareza o porque deste mercado não decolar de vez. As razões são muitas e não caberiam em um só texto, mas há algumas muito gritantes para mim que são as grandes responsáveis por este mercado ainda ser pequeno perto do seu potencial.

A primeira delas é a falta de humildade. Humildade que tem em sua tradução, o perfeito exemplo para o mundo do vinho:

“Humus” = Terra

“ilde” = Pés

Ou seja: Aquele que tem os pés no chão, aquele que tem os pés na terra, como os trabalhadores do campo que trabalham descalços. Oras, estes trabalhadores de pés no chão são exatamente a origem  do vinho no mundo. O que mais seria um viticultor que não um trabalhador do campo?  E jà pararam para pensar que muitos enólogos e donos de vinícolas, principalmente as familiares, também tem suas raízes no campo, com os pés na terra?

Pois bem, parece que muita gente esquece das raízes, esquece que o vinho é um produto do campo, como muitos outros. Mas então, por que tanta gente arrogante e que usa o vinho como objeto de status e de elevação social? Por que tanta gente que ao invés de beber um vinho e numa boa, analisando sim todas as suas nuances, prefere numa mesa de amigos ou num ambiente descontraído, ficar arrotando notas de clorofila negra ou de amoras silvestres dos bosques da Romênia? Será que estas pessoas não veem o quão mal fazem ao vinho estas afetações?

Tudo bem falar de forma técnica e analítica num ambiente com sommeliers, consultores, jornalistas, blogueiros e enólogos. Faz parte do negócio e é importante. Mas fora do ambiente “profissional”, fora do contexto, isto só afasta o consumidor do vinho. Aquele consumidor que tem curiosidade, que quer conhecer, mas acha o vinho uma bebida de fresco, uma bebida difícil e preferem pagar R$ 40,00 numa cerveja especial importada do que pagar R$ 40,00 numa garrafa de vinho. E assim perdemos a chance de fazer este delicioso e charmoso mercado crescer.

Mas há também aqueles que, como eu, pensam diferente. Sempre que conto o porque da minha mudança de vida profissional, falo que resolvi trabalhar com algo que amo e que tenho uma missão, por mais difícil que ela seja: tirar a gravata do vinho, “Desenfrescalhar” o vinho. Sim, é difícil, mas cada vez que me encontro com algumas figuras, meu ânimo se renova. Poderia citar muita gente aqui, e desculpem aqueles que de repente não citei, mas estas pessoas sabem quem são.

Pessoas como Bernardo Silveira, diretor técnico da importadora Zahil e Guilherme Corrêa, diretor de vinhos da importadora Decanter são, para mim, referencias neste mercado. O conhecimento destes 2 mineiros é algo inacreditável. Passaram – e bem – no WSET 4 (Diploma), o curso mais difícil do mundo do vinho, perdendo apenas do cultuado e desejado Instituto Master of Wine. Aliás, sempre digo que em breve teremos mais 2 Master of Wine brasileiros (eles mesmos) que se juntarão ao único da atualidade, o Dirceu Viana Junior, que mora e trabalha em Londres. Competência e conhecimento de sobra, que deveria servir de exemplo àqueles que estão no nosso mercado faz tempo, mas não sabem nem 10% do que eles sabem. E o principal, são caras extremamente humildes, pés no chão, pés na terra e dão aulas de como deveríamos ser todos nós que estamos envolvidos com o vinho de alguma forma.

Se olharmos para o “Sommelier de Salão”, aqueles que deveriam nos servir educadamente, com técnica, conhecimento e humildade, vemos alguns exemplos, mas queria citar 5 deles: o atual campeão brasileiro de sommeliers Diego Arrebola, que nos representará no mundial deste ano em Mendoza, a queridas e sinceras Gabriela Monteleone e Daniela Bravin, que brilham com conhecimento, simpatia, educação e sinceridade, o mais conhecido sommelier brasileiro, Manoel Beato, que tem uma história de vida maravilhosa e por méritos próprios e muita humildade, foi crescendo até chegar aonde chegou, e por último o querido Jonas Soares, um exemplo e simplicidade, de um cara que começou como garçom, virou sommelier e depois gerente do maravilhoso Vinheria Percussi e já foi eleito o melhor maitre de São Paulo pela Veja SP. Há muitos outros, já bem estabelecidos e outros que estão certamente trilhando este caminho, mas fico triste em ver que, na minha opinião, a maioria prefere se mostrar e falar difícil aos clientes sentados à mesa e complicam ainda mais a escolha de um vinho.

Há também aqueles que comunicam o vinho, que divulgam de uma forma honesta e transparente, sem aceitarem qualquer tipo de serem comprados por garrafas e “bolas” para escreverem bem sobre vinhos que nunca provaram ou que não gostam. Já vi muito disto, acreditem. O querido e competente Didú Russo, sempre muito sincero como os vinhos orgânicos e biodinâmicos que ele tanto defende, é talvez o cara que mais luta pelo vinho no Brasil. Suzana Barelli, editora da Revista Menu, Ricardo Castilho (Prazeres da Mesa) e Marcel Miwa (Estadão e Prazeres da Mesa) são outros nomes que deveríamos sempre reverenciar. Jornalistas de mão cheia e que fazem um brilhante trabalho divulgando o vinho, sem afetações! Luiz Horta, com seu gosto apurado pelos vinhos naturebas, é um cara fantástico também, que tem um texto gostoso de ler e sempre informativo. É outro que tem na sinceridade, o seu ponto forte e por isto, às vezes acaba desagradando a alguns. Sem esquecer dos blogs, aqui há muita gente boa, desde o Gil Mesquita, um dos primeiros blogs de vinho que apareceram, que fala em vinhos fáceis e acessíveis na maioria das vezes, passando pela competente Alê Esteves, que começou a pouco tempo e já está se tornando, com seus estudos e dedicação, uma referência no assunto, até gente que extrapola o mundo cibernético para levar eventos e ações reais para que o vinho seja mais consumido, como os amigos Alexandre Frias, Daniel Perches e Beto Duarte. E poderia de novo, citar muita gente que pode se sentir excluído, mas que sabe o quanto admiro e gosto do trabalho de cada um.

Parece um post de rasgação de seda e tenho certeza que muitos lerão desta forma. Paciência! Na verdade, é quase que um desabafo por ver e sentir que o vinho poderia ser muito mais do que ele é aqui. E pra mim, para que isto um dia aconteça, tudo começa e termina com o Ilde no Humus.

 

 

CHEERS!!

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2 COMENTÁRIOS

  1. Estou contigo, Deco.
    Relamente, o “frescalhamento é enorme e só faz mal ao vinho.
    De fato, há muitos outros nomes a serem citados no texto, inclusive o seu, o que só faz nos aumentar as esperanças de um dia termos um mercado mais forte, informativo e maduro, tendo, não o umbigo, mas o vinho como o centro de tudo.
    Parabéns
    abs

    • Grande Fabio! Fico feliz e agradecido com suas palavras! Tenho uma vontade muito grande que isto seja diferente num futuro próximo e com certeza, cabeças como a tua e de muitos outros, ajudarão demais!
      Valeu meu caro!
      Abraços,
      Déco

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